PsiProsa

Conversando com a vida:

Não é justo nem correto dizer que todos precisem se submeter a psicanálise.
O maior de todos os terapeutas sempre foi e continuará sendo a própria
vida. A vida se encarrega de nos interpretar. Os acontecimentos nos
interpretam. Somos o que somos em virtude da capacidade que possuimos
de nos manter em constante diálogo com a vida sem deixar a peteca cair.
É bem verdade que nem sempre este diálogo se dá do jeito que gostaríamos.
Mas para o bem e para o mal estamos constantemente sendo interpretados,
seja pela dor que sentimos ou provocamos quando desconhecemos nossos
limites, seja pela satisfação experimentada quando recompensados em
nossas iniciativas. Viver e conhecer são processos simultaneos e recíprocos.
Acontece quepor vezes o diálogo é duro demais ou a teimosia teimosa o
bastante para não querer escutar e, então, o diálogo se fecha. Por excesso
de dureza do diálogo ou teimosia do sujeito, não suportamos ou recusamos
a seguir conversando com a vida. A realidade se repete e insiste em nos
querer dizer a mesma coisa, desagradavelmente sempre a mesma coisa.
Vivemos um esgotamento de nossas possibilidades de transformar as coisas
e não suportamos a dor de ter de nos transformar. Ai, então, neste contexto,
a terapia tem se mostrado uma importante ferramenta do restabelecimento
do diálogo com a vida. O terapeuta age como um intermediário entre o que
sentimos e a vida, de modo a nos devolver a capacidade de seguir
constantemente dialogando, para o bem e para o mal.



(Miguel Calmon du pin e Almeida, psicanalista, sbprj)